Colocou tantas palavras e sentimentos pesados na carta que, com o selo, ultrapassou o peso de envio. (Edson Rossatto)
Era religiosa, porém muito caloteira. Comprou um carro "em nome de Jesus" e Cristo foi parar no SPC.
Conseguiu fácil o telefone da garota e o anotou na mão. O difícil mesmo foi se lembrar do nome dela.
Quando o Diabo percebeu que seus seguidores só o seguiam de mentira, cancelou seu perfil no Twitter.
Depois de espancar a freirinha, o bandido bêbado se vangloriou: "Eu esperava mais de você, Batman!".
Parou em frente ao banco reservado aos idosos. Continuou a viagem em pé. Não aceitava bem sua idade.
Tornou-se ateu. Difícil mesmo foi convencer os biólogos a mudarem seu nome de louva-a-deus para Ari.
O metrô comia os trilhos, ele roía as unhas. Na próxima estação, ouviria finalmente a resposta dela.
O leãozinho era muito malcriado. Não respeitava os mais velhos. Ontem xingou até o tigre-de-bengala.
Entrou no trem e seu sorriso já foi correspondido. Depois que vendeu o carro, passou a flertar mais.
Ele, palmeirense, vivia na Barra Funda. Ela, corintiana, em Itaquera. Casaram-se. Foram morar na Sé.
Assinou um pacote de tevê fechada. Agora, na padaria, o cãozinho assiste a faisões, perus, pernis...
Quando gastou a sexta de suas sete vidas, escreveu um testamento. Deixou seu humano para o cachorro.
Admirou a lua e suspirou. "Tão grande e bela! Será mesmo que é feita de queijo?", sonhava o ratinho.
Correu, malhou, suou. Duzentos abdominais depois, conseguiu queimar o mousse de limão daquela manhã.
Vivia na Escócia e veio tirar dupla cidadania no Brasil. Gatinho esperto: queria ter quatorze vidas.
"Não dá! Você é frígida, Rebeca! Preciso de uma mulher de verdade". E jogou longe a boneca inflável.
"Ladrão! Já joguei dez moedas! Se mexe, poxa!", exigiu o bêbado, em frente à estátua de Dom Pedro I.
"Parla, parla", gritava o escultor bêbado, perseguindo com um martelo o ator que fazia estátua-viva.
Nunca a "paz" recebera tanta violência. Ela deveria ter tatuado a palavrinha na nuca e não na bunda.
Fez o gol, correu para comemorar. Mas a performance de pole dance no pau da bandeirinha não agradou.
Trouxeram ouro, incenso e mirra. Mas o que ela precisava, naquele instante, era de uma fralda limpa.
Pôs cinco calças e seis blusas para não sentir os tapas do pai. Esqueceu-se de protetores de orelha.
Prometia de tudo para vencer as eleições. No calor desgraçado daquele mês, ganhou votos com "chuva".
Vestiu-se de monstro para assustar o sobrinho. Vinte segundos de gargalhadas, vinte anos de terapia.
"E agradeço ao Senhor pelo alimento que comeremos agora", disse o ateu educado ao anfitrião cristão.
Tirou o sábado para descansar. A partir do domingo, teria seis dias para construir um outro planeta.
No metrô, levantou-se e ofereceu seu lugar ao octogenário. Afinal, era um sexagenário muito educado.
Acordou com 44 anos. Um jovenzinho no espelho. Sorriu. Pulou e deu um soco no ar. "Ai minha lombar".
Sempre detestou as segundas-feiras. Até um feriado cair justamente em uma. Então odiou aquela terça.
"Postura reta, hein!" e colocou o livro equilibrado na cabeça da filha, cujo sonho era apenas lê-lo.
Um corpo inerte na cama ao lado. Tocou-o e ele se mexeu. Alívio. Nunca acordava antes do que a irmã.
Palavras só estragariam... Aquele abraço era o pedido de desculpa mais sincero que poderia oferecer.
O despertador tocou às cinco, ele levantou às seis e acordou às oito, depois da nona xícara de café.
Fizeram o teste de compatibilidade. Feliz, ele comemorou os 9,7. Já ela não tirava os 0,3 da cabeça.
Fez de seu útero um caixão. Ignorava que aquele defunto curaria justamente a doença que iria portar.
O metrô comia os trilhos, ele roía as unhas. Na próxima estação, ouviria finalmente a resposta dela.
"É a última chance!". Aquele motorista de ônibus estava por um fio. Dormiu no ponto, acordou na rua.
Entrou por uma porta e saiu pela outra. Realmente odiava tomar o metrô de São Paulo na hora do rush.
"Mãe, a professora Samanta faltou. Essa aqui é a professora prostituta. Fala oi pra ela!". Silêncio.
Militou ardorosamente contra o governo até se tornar governo e repreender as militâncias contra ele.
Fim da Copa! Resultado: doze toneladas de fitinhas verdes e amarelas penduradas em postes pelo país.
CLASSIFICADO: “Vendo computador usado, chutado e esmurrado ou troco por uma cartela de analgésicos”.
EPITÁFIO: “Aqui jaz Zé Tonhão, que, em vida, nunca pediu desculpas (e morreu exatamente por isso!).”
Apertou o interruptor: as luzes se acenderam. Abraços, lágrimas. O progresso enfim chegou ao sertão.
CLASSIFICADO: "Trocamos gratidão eterna de pais desesperados por doador de medula óssea compatível".
Na tela, sfghtkxçypjto. Um bip repetitivo da cpu. No dia seguinte, acharam-no. A cabeça, no teclado.
Abriu, fechou. Abriu, olhou, fechou. Abriu, olhou, ia fechar, mas abriu mais. O TOC estava perdendo.
Viu crianças brincando no parque. "Queria ter nascido criança; nasci pobre.", e foi olhar os carros.
Sentiu algo diferente, largou a boneca, correu para casa. "Mãe, machuquei por dentro. Tô sangrando!"
"Eita, achei vintão!". Já havia juntado quase mil ao revirar os bolsos do marido na hora da lavagem.
"Essa releitura em funk acabou com a poesia da letra. A original em pagode tinha mais profundidade".
Sorrindo, ofereceu-lhe seu carrinho. Era sua maior prova de amor por ela desde o jardim de infância.
Bip vagaroso e compassado. Fios o ligam a máquinas. Ontem, rachas na avenida; hoje, racha na cabeça.
Chegou na porta. Baixou o olhar. Suspirou. Levantou a mão. Ia bater, mas a porta se abriu. Sorrisos.
ALTOFALANTE: “Atenção proprietário de fusca, ano 1974. Financiamento de Uno novo em setenta meses!”.
Obesidade, barba por fazer, solidão. Ao se conectar a internet, desconectava-se de sua própria vida.
CLASSIFICADO: “Troco cinco títulos mundiais de futebol por fim da fome e da miséria de minha gente”.
"Terminei meu namoro c/ @sara. Dê RT e concorra a jantar romântico comigo no Fasano. Só p/ garotas".
CLASSIFICADO: "Procuro trabalho. Aceito qualquer um oferecido. Pedi esmola para pagar este anúncio".
CLASSIFICADO: "Vendo casa com os melhores anos de minha vida ou troco por nova vida de maior valor".
Resgatou o telefone encharcado da privada. Sem celular, sem paciência e (descobriu agora) sem papel.
Queria que o pai comprasse um novo porque o outro morreu. "Irmãos não são vendidos em lojas, filho."
Beijou a esposa apaixonadamente. Depois de algum deslize, o seu amor era intensificado pela culpa...
Uma mancha roxa no braço. "Bati na quina da escada, professora!" Era a quarta vez só naquela semana.
Seriam doze tábuas, mas a tendinite o atacou na décima. Julgou que já tinha mandamentos suficientes.
"Só acredito vendo", disse Tomé. Então Jesus se deitou no chão e fez trezentas flexões em um minuto.
CLASSIFICADO: "Alugo crianças para serviços externos. Oito a doze anos. Especialidade em semáforos."
"Moço, dá dinheiro pra eu tomar uma pinga?". "Quer me enganar, é? Sai pra lá com esse bafo de pão!".
"Eita, achei vintão!". Já havia juntado quase mil ao revirar os bolsos do marido na hora da lavagem.
"Pilatinhos, nojento! Ao chegares da rua, tens de lavar as mãos!". Cresceu e tomou gosto pela coisa.
Ele comprou uma mesa nova, mas não convenceu a esposa de que poderiam jogar sinuca enquanto almoçam.
Em volta dele fadas, dragões, elfos... "Isso não existe!". Sumiram. O adulto nasce, a criança morre.
CLASSIFICADO: "Vendo planeta azul com vista para o Sol. Área útil para construção: 30%. Único dono".
Orgulhosa de sua profissão, quis ser enterrada de uniforme. Bem polêmico o velório daquela stripper.
Ouviu aquele funk pela nona vez seguida. "Ô, dá pra usar fone de ouvido? Aqui é um trem, sem noção!"
Triste, afogou as mágoas na bebida e acabou com tudo: mandou chover quarenta dias e quarenta noites.
Foi matador de aluguel, mas jurou não mais matar. Um pernilongo o picou. Certos vícios jamais mudam.
Peixes e aquário. Separaram-se pelo signo. Anos depois, tristes, deixaram de acreditar em horóscopo.
CLASSIFICADO: “Seven Sisters Night Club. Venham conhecer! Garotas de alto nível! Negócio familiar!”.
Conseguiu comprar uma casa na Paulista. Foi a sexta vez desde que começou a jogar Banco Imobiliário.
"Eu sinto muito! Infelizmente sua história não rende um bom livro" e foi psicografar outro espírito.
Procurou em diversas imobiliárias. Nem sequer uma esquina vaga. Ser puta está cada vez mais difícil.
Precisava urgentemente de uma namorada. Achar sexy as curvas do frasco de catchup foi a gota d'água.
Tragou e soltou a fumaça lentamente. Escutou um tossido da filha. A culpa apagou a vontade de fumar.
Tristinho. Na mão, a sorte no biscoito chinês: "Felicidade logo". Há dez anos guardava aquele papel.
CLASSIFICADO: "Troco coração farto de ilusões por pedra de igual tamanho. P.S.: Não aceito retroca."
Foram dois anos de espera, mas finalmente ele chegou. Agora serão apenas um: ela e seu novo coração.
Oito anos de amizade. Três de namoro. Noivaram um. Cinco meses de casados, um arroto. Conheceram-se.
Buquê de rosas murchas sobre a mesa. O dia dos namorados passou. Neste ano, ninguém para presentear.
Pediu algum trocado. Ganhou 25 centavos. Agradeceu. Faltava muito para comprar a dignidade almejada.
Pela quarta vez, perguntou "Que Mário?". Cansado disso, procurou um mário no orkut e ficaram amigos.
Domingo: abraços, lágrimas e sorrisos! Título mundial conquistado! Segunda-feira: "Ô país de merda!"
Comprou quatro. Pagou caro no investimento. Então veio a Princesa Isabel e prejudicou seus negócios.
Sem fórmula para a viralidade facebookiana
Sinceramente não entendo como algumas coisas sem conteúdo fazem um sucesso tremendo nas redes sociais, como a lazarenta da Luisa que voltou do Canadá famosa pacaray ou a morfética da Rita, que era culpada até pelo metrô lotado.
Nós, escritores, tentamos a (quase) todo custo divulgar nossos livros de modo que boa parte dos leitores se interesse a lê-los.
Eu, por exemplo, que escrevo nanocontos, preparei mais de quarenta memes (como esses à direita) para serem compartilhados no Facebook. Achei que aliar microliteratura à linguagem facebookiana poderia gerar de centenas a milhares de compartilhamentos, uma vez que besteiras sem conteúdo ganham milhões de compartilhamentos.

Ledo engano do Rossatto. Cada meme que criei tem, no máximo, vinte compartilhamentos. Inicialmente fiquei frustrado, mas agora estou mais conformado, pois não há fórmula para a viralidade nas redes sociais.
Por esta razão, vou arduamente divulgar meus nanocontos, fazendo testes, vendo o que funciona. E você que gosta de meus nanocontos (pelo menos eu espero isso ...rs) pode me ajudar a, pelo menos, TENTAR viralizar esse projeto. Enxergo, pelo menos, duas formas para isso:
Agradeço muitíssimo a boa vontade de não me xingar ou dizer “não quer mais nada, né?”. E também agradeço se me ajudar a fazer do CEM TOQUES CRAVADOS uma nova febre no Facebook (já ficarei feliz se for uma enxaquecazinha).

Ledo engano do Rossatto. Cada meme que criei tem, no máximo, vinte compartilhamentos. Inicialmente fiquei frustrado, mas agora estou mais conformado, pois não há fórmula para a viralidade nas redes sociais.
Por esta razão, vou arduamente divulgar meus nanocontos, fazendo testes, vendo o que funciona. E você que gosta de meus nanocontos (pelo menos eu espero isso ...rs) pode me ajudar a, pelo menos, TENTAR viralizar esse projeto. Enxergo, pelo menos, duas formas para isso:
(1) Acessar o álbum de memes na página do Cem Toques Cravados e compartilhar os que você mais gostar;
(2) Enviar por e-mail aos amigos os memes de que mais gostar.
Agradeço muitíssimo a boa vontade de não me xingar ou dizer “não quer mais nada, né?”. E também agradeço se me ajudar a fazer do CEM TOQUES CRAVADOS uma nova febre no Facebook (já ficarei feliz se for uma enxaquecazinha).
Juntou as mãos para rezar. Já era tempo de um ateu como ele tomar jeito. Esperava parar o terremoto.
Beijos, toques, volúpia! Estavam exaustos quando o marido dela entrou em casa com um buquê de rosas.
Subiu em um prédio alto. Olhou pra cima. "Obrigado!". Desceu. Dias antes, não podia nem se levantar.
O casulo se partiu. De dentro, foi saindo uma borboleta. Slept! Azar nascer ao lado de um sapo, não?
Pôs The Cure para tocar. Queria um som amigo ao arrumar a banheira, os pulsos, a gilete e a coragem.
De onde estava, Ana ouviu o marido elogiá-la. Ficou emocionada. Um viúvo saudosista... e cavalheiro.
Gritou "Ana" na sacada. Apareceu a mãe. Disfarçou. Jogou uma rosa. "Feliz dia das mães!" Era Páscoa.
No menu, somente nomes franceses. Foi embora. Não sabia como dizer “bobó de camarão” naquela língua.
Escreveu uma longa carta de amor. Depois envelopou. Pôs o seguinte endereço: "Céu, ao lado de Deus".
CLASSIFICADO: "Troco marido inútil, machista, bruto e traidor por rádio-relógio. P.S.: Volto troco."
Pilhas de livros em volta dele. Amava ler ali. Terminou o que estava fazendo, deu a descarga e saiu.
Queria falar com ela, a timidez impedia. O ônibus freou. Ela caiu em seu colo. Sorrisos encabulados.
Brava, a bibliotecária percebeu que foram arrancadas as últimas páginas do livro "História sem fim".
CLASSIFICADO: "Procuro filho desaparecido. Visto pela última vez no ano de 1968 em passeata da UNE".
"Acabou a tinta azul! E agora?". Ao final do temporal, o povo contemplou um arco-íris de seis cores.
Acariciou e beijou a face negra do bebê. Intolerância no passado, perdão no presente. "Meu netinho!"
Mostrou fotos suas com lingerie. Queria deixá-lo excitado, mas a luz ruim e o foco torto o broxaram.
Ele era totalmente viciado em sexo. Dos outros. Gostava mesmo era daquelas confissões bem cabeludas.
Levantou-se do chão, prendeu o cabelo e enxugou as lágrimas. Jurou que ele jamais a tocaria de novo.
"Escolha o sobrenome você mesmo". E toda a bicharada passou a chamá-lo de Adão First do Éden Garden.
Levantou o joelho do chão e guardou a aliança. Não seria agora (e com ela) que formaria uma família.
Levantou o punho e ela ofereceu-lhe a face. Mão baixando. A Maria da Penha já havia passado por ali.
Ele a amava. Mas só ele. Ou a matava na trama ou seus leitores deixariam de ler sua série de livros.
Os lábios se tocaram. Foram sentindo o gosto um do outro: o dela era de paixão. Já o dele, de adeus.
Entregou a ela o último biscoito do pacotinho. Conhecia bem o perigo que corria no período da T.P.M.
CLASSIFICADO: "Troco shampoos e condicionadores por peruca (e recomendo o uso moderado de tintura)".
"Nós já estamos fechando, senhor!". Triste, foi para casa. Esperaria por ela até seu último suspiro.
"Quero ligá as trompa! Agora que tô com convênio de saúde bão, vô aproveitá!". "Mas Seu Genésio...".
Sentiu os degraus e suas quinas. Quando tirou o gesso, jurou aprender a andar direito de salto alto.
Vestiram-se. Ele foi o primeiro homem da vida dela, mas ela não gostou. Voltaria a sair com meninas.
Estava sentado naquela cafeteria havia horas. "Deseja mais alguma coisa". Suspirou. "Amor próprio!".
É escritor e tem criatividade de sobra. Mas quando está diante do olhar dela faltam-lhe as palavras.
Uma colher de açúcar. E outras... Provou: ruim. Não conseguiu adoçar seu café e nem sua vida amarga.
CLASSIFICADO: "Vendo meus diplomas de doutorado ou troco por emprego que realmente pague as contas".
"Falsa? Importei de Paris e paguei os olhos da cara, invejosa!". Na etiqueta, a marca: "Luiz Vitão".
Contou no ouvido dela que a amava. Só ignorava que seus olhos já o tinham denunciado há muito tempo.
EPITÁFIO: "Aqui jaz Supercara, que morreu para alavancar vendas de HQs. Ressurreição em dez, nove...
"Mamãe, um palhacinho". E apontou para a moça, que só percebeu ali que havia carregado na maquiagem.
"Sem você eu não poderei viver". Mesmo assim ela se foi. E não pagou mais os médicos que o tratavam.
Sofreu bullying desde criança por conta de sua cor. "Volta pra Alemanha, branquela! Sai da África!".
"Vou beijá-la até o fim de minha vida". E cumpriu: um beijo de dez minutos, seguido de sua execução.
O médico sugeriu felicidade em mínimas doses. Para ela, eram encontros agradáveis. Para ele, a cura.
Ganhou uma sandália rasteirinha do namorado, que ignorava o joanete dela, apelidado de “sexto dedo”.
Fizeram o teste de compatibilidade. Feliz, ele comemorou os 9,7. Já ela não tirava os 0,3 da cabeça.
"Um nanoconto? É sério mesmo? Esperava uma novela". Considerou seriamente mudar de musa inspiradora.
Ela sorriu e tapou a boca dele. "Esses homens! Não entendem que certos momentos não pedem palavras".
Ensaiou todas as palavras que falaria. Aí ela chegou e sorriu. Ele mal conseguiu pronunciar um "oi".
Quis roubar um beijo. Ela virou o rosto; depois sorriu e concedeu um selinho. Criminoso reabilitado.
Como prova de amor, queria lhe trazer a lua ou as estrelas, mas ela pediu um calango. E com lacinho.
Juntos seriam um só coração. Mas a distância os amaldiçoava a ser duas metades com um único encaixe.
Mãos dadas pelas ruas. Ele conduzido por ela. Coração apertado pela separação: primeiro dia de aula.
Na sola, tinha um furo; na calça, um remendo. Na mão, um jornal com "PRECISA-SE" circulado à caneta.
Na caixa, uma foto, uma rosa seca, uma aliança e um bilhete escrito "Amo você". No coração, saudade.
Era a 37ª que amava naquele dia. Sempre que a olhava, via uma mulher diferente. Cada vez mais linda.
À Andréa Cristina Nascimento, com um beijo
Ontem dezesseis anos, amanhã completará vinte. Na identidade, a data de nascimento: 29 de fevereiro.
Queria ser como o outro. Ignorava, porém, que todos os outros tinham como meta de vida ser como ele.
Entregava-se de corpo e alma. Para ela, amar não era problema. O problema mesmo era a reciprocidade.
Freou e aumentou os faróis. O desespero e a constatação: o que bateu em seu carro não foi um tronco.
Bradava à multidão que era filho de Ogum. Mas Ogum, envergonhado, não surgiu para tirá-lo da cadeia.
Abandonou a carreira por um amor. Abandonada, correu de volta, mas a carreira já não estava mais lá.
“Alô, Bia? Ah, desculpe o engano!”. Assim aprendeu a não anotar telefones na mão. “Isso é um seis?”.
“Comida saudável é comida colorida”, disse a nutricionista. Aí ele encomendou vinte quilos de M&M’s.
A música que a lembrava era a mais tocada nas rádios. Mesmo assim, ele continuava ligando e pedindo.
Enter. Depois de suspiros, o arrependimento. Disse naquele e-mail o que não falou em anos de namoro.
Gostava do Rock in Rio. Só achava estranho que no evento não tocava só rock e nem sempre era no Rio.
“Não tem Coca, pode ser Pepsi?”. Com a vida infeliz e dolorida que levava, que diferença faria isso?
Era o melhor do cardápio, mas pediram quente. O garçom levou o prato de vingança de volta à cozinha.
Caiu por terra o velho dito “a oportunidade faz o ladrão” quando lhe deram uma oportunidade na vida.
Não aceitava perder. “Me dá aqui”. Chorando, o menino implorava para que o pai devolvesse seu X-box.
Ficou com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar. E veio com um gole de uísque.
No parapeito da cobertura, as pernas dele fraquejaram antes que tivesse coragem de abrir o envelope.
Retornou do mercado com a compra do mês: ração para os cães e gatos e cinquenta pacotinhos de miojo.
Abriu outros dois botões e decotou ainda mais sua blusinha. “Ah! Quero só ver ele me multar agora!”.
Fingiu dormir, pôs fone de ouvidos... Nada adiantou. O senhor da poltrona ao lado ainda puxava papo.
Contemplava a tela branca. Faria ali seu melhor kanji com ramos de sakura. Logo abaixo da nuca dela.
Parada cardíaca. Tristemente o coração de Sofia cessou a capacidade de amar. Agora é uma morta-viva.
Chantilly, preservativo, chicotinho. O serviço de bordo daquela companhia aérea fazia muito sucesso.
O sol feriu seus olhos. E foi o que menos doeu, depois de vários dias, chorando na cama e no escuro.
Deixou a Ana Rosa. Rumou para a Liberdade. Chegou no escritório do advogado: o divórcio havia saído.
Justamente na noite em que ela estava desarrumada e com o cabelo bagunçado foi que ele se apaixonou.
Feliz da vida, contou a todos que soltou um pum. Aos poucos, foi se curando de sua diarreia crônica.
Respirou bem fundo e suportou cada larva que apareceu. Valeu a pena quando contemplou as borboletas.
Adorava aquela música, até a cantava em voz alta. Quem não gostava era o resto das pessoas do vagão.
Esperou-a na plataforma, mas ela não apareceu. Embarcou, então, numa melancolia até o final da vida.
Era a única mulher lá por quem nunca poderia se apaixonar. Mas existe história de amor sem conflito?
Desentenderam-se e deram as costas. Foram se virando lentamente. Olharam-se. Um sorriso selou a paz.
Se fosse somente pelo tesão, estaria tudo resolvido. Mas tinha realmente que entrar o diabo do amor?
TCC, trabalho, dor de cabeça, unha encravada... Qual seria o grave motivo para não encontrá-lo hoje?
Em suas quatro fases, reinava na noite. Até a garota aparecer. Então a lua virava dama de companhia.
Para ela, só um sorriso; para ele, as portas de um mundo onde só existia felicidade, amor e ternura.
Desejava-o de corpo e alma, mas havia dado sua palavra de que seria uma ótima madrinha de casamento.
Deixou o carro em casa, pois beberia cerveja. Chamou um táxi. No porta-luvas, uma garrafa de uisque.
Escreveu na árvore "Rodolfo esteve aqui!". Torcia para que o juiz considerasse isso um álibi válido.
Ele escrevia poemas em guardanapos de papel até enxugar a testa e assoar o nariz com sua obra prima.
"É agora!". O trem de pouso tocou o solo. "Droga! Pensei que bateria a meta do dia!", disse a morte.
"Apertei os botões: o avião continua caindo!". "Aperta...". "O quê!?". "...a mão da pessoa ao lado".
Sorrindo, olhou em volta, mas ninguém parecia se interessar no resultado de seu tratamento dentário.
Depois da transa, Veridiana acariciava com cuidado os testículos dele. "Ah! Que saudades dos meus!".
Falava que era feliz sozinho. A verdade: seu melancólico coração inteiro esperava pela outra metade.
Seguiu-a todos os dias por cinco meses. Desistiu porque ela escrevia muitas besteiras. Deu unfollow.
Achava que valia mais um pássaro na mão. Só mudou a opinião quando foi duramente multado pelo IBAMA.
"Pô, mulher! Larga o meu pé!". "De jeito nenhum! Quer se matar? Vai fazer isso no seu apartamento!".
Patriótico, tatuou bem no peito o mapa de seu país. E então a guerra civil o dividiu em duas nações.
Era viciado em nicotina, em cafeína e na Marina. Esses vícios estavam acabando de vez com sua saúde.
Tuitou "Peguei minha mulher e meu irmão na cama". Era mentira, mas com seus quinze retuites de fama.
Cabelos no chão, lágrimas na face. "Dalila maldita! Você sabe quanto custa uma escova progressiva?".
Sentiu pena daquele ser. Voltou a revirar o lixo, tentando não se lembrar do corrupto do noticiário.
Achavam que ele era religioso. Descobriram que não rezava e só sabia comer. "Louva a Deus uma ova!".
Selecionou o texto, copiou e colou. Mudou os nomes e os lugares. Prontinho: seu próximo best-seller!
Colocou os óculos e olhou novamente. "Hum, tá bom, desculpe! É sua irmã, mas continua bem gostosa!".
Brigaram pela mesma garota. Ele foi preso pela lei Maria da Penha; e ela saiu abraçada com a garota.
"Mas não tem jeito?". "Sem carimbo não dá". Foi embora. Reagendou a consulta pra dali a cinco meses.
Conheceram-se na livraria. Tímidos sorrisos. Ali mesmo passaram a escrever a história de suas vidas.
Perdeu o concurso de Miss Jardim devido à bunda volumosa. Jamais tanajura alguma ganhou esse prêmio.
Encontrou outra no caça-palavra e a riscou. Achou muito estranho que "amor" cruzasse com "dinheiro".
Acordou repentinamente. Olhou em volta. Tudo não passava de um sonho. Ainda dormia no frio e na rua.
Nasceu com três olhos, uma orelha e treze dedos nos pés."Ufa! Meu filho é um marcianinho perfeito!".
No chão, amarelinha. Ele tremia como uma vara verde. Ela, bem vermelhinha. Um semáforo de inocência.
Acharam um fio de cabelo dele na cena do crime. Era um dos 123 suspeitos pela morte do cabeleireiro.
Amou-a por onze anos. Em uma manhã, deixou de amá-la e se apaixonou pelo reflexo que via no espelho.
Seguiu a dieta da lua cheia: comia cinco vezes ao dia. Quando terminou, parecia mesmo uma lua cheia.
A sunga nem estava tão curta, mas todos olhavam. Até que o segurança do shopping o chamou num canto.
Rosa o amava, mas não tolerava infidelidade: deixou-o, pois ele vivia beijando outras flores por aí.
No quintal, brincavam de médico... do hospital da prefeitura. A menininha nem ao menos foi atendida.
Perdeu uma das pernas e, com isso, sua identidade. Estranhava quando a chamavam de noventenoveopeia.
Era feio, baixo, chato, barrigudo e careca. Só conseguia sair com mulheres com o putaxímetro ligado.
Queria tatuar um dragão. "Seu braço é muito fino, rapaz. Réptil por réptil, que tal uma lagartixa?".
Na despedida de solteira da stripper, resolveram fazer algo completamente diferente: foram à igreja.
Tinha um na mão. Entendeu que valia mais ver dois voando. Soltou a fêmea e viu o casal sumir no céu.
Desfilou na Marquês de Sapucaí com uma bela fantasia de baiana, mas, na verdade, ele era maranhense.
Viveu a vida que pediu a Deus. Entretanto, decididamente detestou o pós-vida que não pediu ao Diabo.
Colocou silicone nos seios, levantou a bunda, fez lipo e resolveu se esquecer do "Nelson" de seu RG.
Um mendigo em sua frente. O moço entregou moedas a ele. Quinze centavos confortaram sua consciência.
Nasceu no ano do cavalo no horóscopo Chinês. Talvez isso explique os coices gratuitos que distribui.
Um mendigo em sua frente. O moço entregou moedas a ele. Quinze centavos confortaram sua consciência.
Ela mentiu a idade: disse que tinha oito anos a mais. Já ele, cinco anos a menos. Riram e se amaram.
Pulou da janela vestido de Superman. Engessado, concluiu que era um herói mais na linha do Chapolim.
Gabava-se de que era mulher de um homem só. Apenas não contava que o marido matava todos os amantes.
Pediu um palpite. Deram sessenta. Decidiu distribuir o que sobrou, mas ninguém gosta de palpiteiros.
Dormiu. Só o acordaram no ponto final. Perdeu a parada, o emprego, a esposa, a calma e a autoestima.
Ofereceram flores a Iemanjá no ano novo. No dia seguinte, ela não apareceu para buscar as oferendas.
Puxou-a pelos cabelos e a esbofeteou. Sentia-se mal por tudo aquilo, mas o que fazer se ela gostava?
Achava que a garota era virgem, mas descobriu ser traiçoeira como um escorpião. Agora ele era touro.
Segundo a profecia, o mundo acabaria à meia-noite. No dia seguinte, o pesar pelo sexo com o cunhado.
Jurou que seria a última vez que faria aquilo. Mas ela não acreditou. O olho inchado era testemunha.
Entrou para o Guiness: o homem mais triste. Mas o sorriso de Ana atrapalhou seu título no outro ano.
Matou aulas a vida toda. Descobriu tardiamente que pagaria por esses crimes na prisão do subemprego.
Na carta psicografada: "Mãe, por favor, NUNCA MAIS coloca água sanitária na garrafa pet de guaraná".
Saboreou bem devagar aquele chocolate. Na idade dele, os prazeres se tornavam cada vez mais simples.
Procurou o número na agenda no J, de João, e no T, de Tio João. Encontrou no C, de Casa do Tio João.
Coberto de sangue, com um cutelo cravado na cabeça, Zé entrou cambaleando na farmácia. "Tem doril?".
Tentou ser juiz de futebol, mas a inscrição foi barrada ao descobrirem o passado cândido de sua mãe.
Olhou para o garçom: "Certo, mas se você parar de fazer esse biquinho o escargot fica mais barato?".
Era a única mulher lá por quem nunca poderia se apaixonar. Mas existe história de amor sem conflito?
Leu dezenas de livros da Agatha Christie. Aprendeu tudo sobre teoria do crime. Era hora de praticar.
Sentia-se um grande fracassado. Nada do que fazia dava certo. Nem sua segunda tentativa de suicídio.
"Nossa! Nunca tinha visto um tão grande assim! Quanto mede?". "Treze". Era um dos maiores de Tóquio.
No metrô lotado, ela percebeu a safadeza dele. "Vai parando com essa brincadeira gostosa aí atrás!".
Sem sorte no amor, aconselharam-no a jogar na Mega Sena. Melancólico, preferiu se jogar no rio Sena.
Com o Mar Vermelho aberto, Moisés deu um espirro e se desconcentrou. Ufa! Seu povo nadava muito bem.
Tirou foto do ator com flash. Os espectadores desconfiam que o palavrão não fazia parte da montagem.
Só quer um pouco de atenção: possui 37 assinaturas de jornais e revistas. Triiiiim! Olhos brilhando.
Sempre foi homem de uma única mulher. Nenhuma outra, além de sua mãe, aguentava suas insanas manias.
Queria se perder no mar profundo do olhar da moça. Preferiu se encontrar na placidez do seu sorriso.
Levava com honra no peito o brasão do seu time. Levou com agonia no peito um tiro do torcedor rival.
Não admitia que a esposa o enganasse. Exigiu uma listagem com os nomes dos homens com quem ela saía.
Mandou a mãe ao inferno. Nunca fez isso antes. O demoninho pagou toda a viagem. Afinal, ela merecia.
O sorriso dela era meigo, sincero e puro. Não precisava nem abrir a boca. Era um sorriso no olhar...
Saindo da delegacia: "Ai que vergonha! Trabalhos forçados, Juliano? Só te pedi para lavar a louça!".
Desenhou um coração no guardanapo de papel. Suspirou. Mais um pouco e será tarde para o transplante.
Casamento arranjado. Conformados, viram-se no altar. Levantou o véu. Olhares. Amor à primeira vista.
"Pode fumar aqui?". "Não, senhor!". "Ué! E por que aquele homem está fumando?". "Ele não perguntou".
A moça era uma torturadora sem compaixão: exibia aquele joanete horrível para quem (não) queria ver.
Dormiu com dezoito e acordou com 32. Morria de medo de cochilar e dar-se conta de que tem cinquenta.
Escrevia poemas para matar o tempo, enquanto o tempo, a melancolia e a saudade não o matavam de vez.
Ignorou a placa de sessenta e atropelou um garoto. O juiz ignorou seu apelo e o sentenciou a trinta.
Trabalhava duro vendendo balas no semáforo de segunda a sexta. No sábado, fazia bico como arquiteto.
Na carta psicografada: "Mãe, por favor, NUNCA MAIS coloca água sanitária na garrafa pet de guaraná".
Triste, tuitou "Sinto-me só!". Setenta milhões retuitaram e novecentos mil responderam "Eu também!".
Entrou armado no banco. Levaria todo o sangue ainda na madrugada ou queimaria no amanhecer tentando.
Passou só o dia dos namorados, mas não se importou. Já havia ficado sem um índio no dia 19 de abril.
O rapaz cortou a cebola e lágrimas caíram. Coitada! Era feio demais. A cebola não resistiu e chorou.
A professora viu o desenho da família do aluno, todos de mãos dadas: vó, vô, ele, pai um e pai dois.
Foi ao sexto, ao segundo e ao nono. Enquanto não ficasse sóbrio, não acertaria o botão de seu andar.
Sentia-se um fracassado. Chorava depois dos espetáculos. Terminava ali a quarta geração de palhaços.
Provou a calcinha. Não gostou. Era amarga. Prometeu nunca mais se deixar levar pelas fantasias dela.
Já não o aguentava mais, mas ainda precisava posar ao lado dele em muitos outros bolos de casamento.
Disse à mãe que queria ser miss, mas ela tinha outros planos: "Você vai cursar medicina, Sinvaldo!".
"Volta! Sinto muito sua falta!". Desde que ela o deixou, ele nunca mais havia usado uma cueca limpa.
Seu corpo escultural simplesmente caiu. Mas aquela coisa meiga em seus braços fez tudo valer a pena.
Piscava-lhe desesperadamente. Entretanto, ele não compreendeu: continuou com o zíper da calça aberto.
No crachá, sobrenome de solteira. Orava para que ninguém na empresa conhecesse seu ex-marido bêbado.
Estava triste, pois não tinha amigos para tomar uma cervejinha. Eva não contava e a cobra era falsa.
Aprendeu a pronunciar "eu amo você" e em latim. Entretanto, seu amor não retribuía nem em português.
Já não eram mais íntimos, e também não podiam ser amigos. Algum tempo depois, eles mal se conheciam.
Não era um livro qualquer, era um livro sobre a sua vida. O que doía era que ninguém queria lê-lo...
Era esquecida e vaidosa. "Na bunda dói menos". Deu dó do médico tentando conter o jorro de silicone.
De novo, chorou. Diziam que não existe somente um amor na vida, mas vá explicar isso ao seu coração.
Olhava fixamente aquela carta de despedida. Lágrimas. Suspirou e a rasgou. Desistiu: resolveu ficar.
Resolveu escrever suas memórias, que se resumiam a um mês. Era o que o Alzheimer o permitia lembrar.
Perdeu o filho para a fome e o marido para a peste. Só não perdeu a fé de se juntar a eles em breve.
"Madame Ana faz e desfaz qualquer trabalho". Após várias ligações, a correção na placa: "Menos TCC".
Envelheceu... Da noite para o dia, de um minuto para o outro. Bastou tão-somente perder a esperança.
Malabarismo no farol, flanela no parabrisa, balas na calçada. Deixara de ser criança aos cinco anos.
Estava feliz com o corpinho. Emagreceu quarenta quilos depois que fez a cirurgia de redução de boca.
Uma chance única. Preparou-se. A porta se abriu. Correu, mas não conseguiu o lugar sentado no metrô.
Pediu aumento. Alegou que tinha dificuldades em rir das piadas do chefe e que era puxa-saco com MBA.
O último lugar ocupado no ônibus era sempre ao lado dele. Não sabia o motivo até desentopir o nariz.
Ele colocou no cestinho uma moeda de cinco centavos. A estátua viva se mexeu: levantou o dedo médio.
"João, Jesus transformou água em vinho de novo". "Ai! Lá vou eu limpar vômito de bêbado outra vez!".
Monarquista convicto, subiu na Pedro II e desceu na Anhangabaú. Desembarcar na República nem pensar.
Ele gostou das piscadinhas dela, enquanto ela, distraída, só se preocupava em tirar o cisco do olho.
Sorriu aliviado. Chegou ao trabalho antes de a chuva alcançá-lo. "Pego você na saída!", ela ameaçou.
Sonhou claramente com um ornitorrinco. Só não tinha certeza em qual animal apostar no jogo do bicho.
Perdeu o emprego, a mulher e o amor próprio. Ganhou peso, úlcera e a rifa de um radinho de pilhas...
Roubou uma Bíblia e a deu de presente de Natal para a mãe, com o mandamento "não roubarás" rasurado.
Bentinho apaixonou-se pelos olhos de ressaca de Capitu. Ele vivia a suspirar. Já ela vivia bêbada...
Era mesmo bem macho: em casa, espancava a mulher; na rua, trocava de calçada ao avistar o Zé Tonhão.
Vigésima sessão. Apaixonado por sua analista, teve que tratar sua paixão platônica com um psicólogo.
O gosto do café era menos amargo do que as palavras dele. Sentiu outro gosto: o salgado de lágrimas.
CLASSIFICADO: "Troco meu império jornalístico por kit com trenó de neve e telefone de Orson Welles”.
Saiu do armário: parou de pentear o cabelo para frente, rasgou o boné e assumiu sua mente brilhante.
Apalpou os peitos demoradamente e com muito cuidado... Sentiu alívio ao não encontrar nenhum caroço.
Tem vergonha dos pés, mas não perde a pose: na praia, os scarpins mais bonitos sempre são os dela...
Estava inteiramente cego de paixão. Beijou-a na boca... Ele nem se importava com a pele gelada dela.
Quatro da manhã. Aflição. Repentinamente, ouviu o barulhinho mágico da chave na porta: filha segura.
Era muito mau caráter. Vendeu a mãe oito vezes e não entregou. Não tinha um pingo de palavra sequer.
Contou um por um. Lágrima. Sentiu-se aliviado. Seu bebê era perfeito; nascera com todos os dedinhos.
Chamaram-no de racista. Entretanto, ele não se importava nem um pouco. Não gostava de brancos mesmo!
Aos doze, usava batom e salto alto. Já a mãe, na cama do esposo, realizava sua fantasia de colegial.
Assoprou as velas. Desejou que no seu aniversário do próximo ano tivesse mais gente além de sua mãe.
Pegou o ferro de passar roupas e os deixou lisos. No final de tudo, a chapinha não fez falta alguma.
Ensinou ao filho a fazer contas e a andar de bicicleta. "Será um grande economista!". Virou motoboy.
Pegou o ferro de passar roupas e os deixou lisos. No final de tudo, a chapinha não fez falta alguma.
Quando iniciaria o concerto mais esperado de sua carreira, o maestro foi interrompido: "Toca Raul!".
CLASSIFICADO: "Troco sessenta anos de ceticismo religioso por vinte segundos de fé e morte plácida".
Desejou-a da cabeça aos tornozelos. Evitava olhar os pés. Aqueles joanetes lhe saltavam aos olhos...
Escovou seu gato angorá. Só tinha olhos para ele. Já os ouvidos ignoravam o choro do bebê no quarto.
Seguiu seu coração: declarou-se a ela. Antes tivesse seguido seu horóscopo: "Hoje não é um bom dia".
Sua memória estava voltando. Olhou para a mãe: "Gosto de Coca! Boa senhora, poderia me trazer uma?".
Deixou de responder seus e-mails, não atendia suas ligações e mesmo assim ele não entendeu o recado.
Violentou-o por vários anos. Até que compreendeu que seu amor próprio não merecia esses maus tratos.
Realmente precisava esquecê-la. Concentrou-se nos defeitos. "Desgraçada! Defeitinhos apaixonantes!".
Nunca esteve tão deslumbrante. Mas, para ele, era como se fosse uma dama em um quadro: inalcançável.
Múltiplos pedaços. Tentava encaixar um aqui, outro ali. Porém, seu coração estava muito fragmentado.
Jogou a moeda. Deu coroa. Traçaria a velha e economizaria grana. Aquela profissional era muito cara.
"Preto...". "Negro, por favor". "Não, o meu carro é preto mesmo". "Ah, desculpe! É força do hábito".
Mentia: era acreditado. Aí contou a verdade: ninguém acreditou. Sua carreira política chegou ao fim.
Melancia, melão, morango... Amava as mulheres frutas da tevê. Só não gostava muito da Mulher Banana.
"Que cheiro de queimado". "É que o micro-ondas queimou. O pior é que minhas meias continuam úmidas".
Deixaram-no bêbado e o mataram. O sindicato das aves entrou na justiça contra essa prática natalina.
Sentiu o peito arder, o empapar do uniforme. Caiu. Tudo silenciando. Para ele, a guerra acabava ali.
Deixou de acreditar em Papai Noel no minuto em que o "bom" velhinho o roubou num joguinho de pôquer.
No toalete, antes de fazer a prova de improviso. Sem papel. Olhou a meia. Sorriu. Nota dez na prova.
Nunca dava uma dentro. Evitava falar. Mas precisava consolar a família do falecido: "Meus parabéns".
Foi à missa, depois ao culto e, na encruzilhada, despachou o galo preto. Toda ajuda seria bem-vinda.
Segurou o choro. Da fresta, viu o fuzilamento do pai. Orava para que os nazistas não o encontrassem.
Tem muito amor para dar. É uma pena que ainda não conseguiu encontrar alguém que queira aceitá-lo...
Eles trocaram ouro por espelhos, vida por massacre, saúde por doenças... "Quem descobriu o Brasil?".
A doença o definhava. Aos trinta, parou de andar. Aos quarenta, de falar. Aos cinquenta, de fumar...
Seguiu-a pelas ruas. Em casa, ela bateu o portão. Do lado de fora, ele até ganiu, mas não a comoveu.
No salão de cabeleireiro, a bandeira do Brasil na parede, com os dizeres: "Ordenado e Progressiva!".
Dizem que felicidade não se compra, mas ele pagou um real e cinquenta nela. E tem gosto de baunilha.
Estava triste. Por nada e por tudo. Aí ofereceram chocolate. Um sorriso meigo e menos triste brotou.
Ela sorriu com suas palhaçadas. O sorriso dela era tão bonito que ele não imaginava o rosto sem ele.
EPITÁFIO: "Aqui jaz Gil, que driblou a morte durante a vida e, infeliz, resolveu marcar gol contra".
Tocou levemente a rosto dela. "Mas eu ainda te amo". Ela abaixou a mão dele. "Até ontem, eu também".
Toda de branco, buquê em mãos, sorriso... Em frente ao espelho, acarinhou a barriga. União e vida...
Três anos de carinhos e elogios. Ele aguentou aquilo o quanto pode. Aquele masoquista não era feliz.
"E pra acompanhar o café?". Olhou a cadeira vazia. Pensou em responder "a Malu", mas pediu adoçante.
Sempre quisera ser uma mulher de parar o trânsito. Sentiu-se nas nuvens no dia em que a atropelaram.
Depois de comer a Chapeuzinho Vermelho, o Lobo Mau se arrependeu. Teve que assumir o lobisomenzinho.
Quando finalmente aprendeu a ser pai, teve que começar a estudar novamente. Desta vez, para ser avô.
Entrou na androteca, fez a carteirinha e, no mesmo dia, pegou emprestada uma pessoa para bater papo.
Quinta xícara de café. Se fosse vinho, ele já teria conseguido coragem para se declarar à garçonete.
EPITÁFIO: "Aqui jaz Rosa, que, em vida, nunca recebeu flores. Família agradece as coroas recebidas".
Desespero, lágrimas, ódio, tristeza, esperança, conformismo, saudade, amizade... Um dia já foi amor.
Comeu o pão que o diabo amassou por anos e anos. Ganhou tanta experiência que passou a amassar pães.
“Frio mata dois na cidade”. Sentiu pena. Fechou o jornal. Adiante, cobriu um mendigo com o tabloide.
Assista abaixo a adaptação deste nanoconto:
Filme de 100 segundos, baseado em nanocontos de Edson Rossatto, do projeto CEM TOQUES CRAVADOS, e produzido como trabalho final da Oficina de Realização Audiovisual da SEDA - Semana do Audiovisual - Bauru - SP
Queria o divórcio, mas só confiava no amigo advogado, que era criminalista. Resolveu matar a esposa.
Contou no ouvido dele que era sua primeira vez. Experiente, aprendeu a não acreditar em prostitutas.
Quando ela voltou do banheiro, a conta do restaurante ainda estava lá. “Vamos dividir?”, ele sorriu.
João amava Maria, que amava Simone, que amava a grana de João, que se contentou em vê-las transando.
Digitou seu nome no Google. Notou um blog com cem mil visitas, feito por sua ex: www.morracelso.com.
Ele a chutava e lhe roubava comida todos os dias. Ainda assim, ela mal esperava pelo seu nascimento.
Estudaram juntos na Escola Especial para Mudos. Queriam botar o papo em dia, mas carregavam sacolas.
Pousou, olhou, gingou. Bateu as asas negras. Era um corvo muito malandro: levou a alma dele no bico.
Na sala de aula, pediu emprestado um lápis "cor da pele" ao amigo. "Certo, mas da minha ou da sua?".
EPITÁFIO: "Aqui jaz Laudo Dalton, que não enxergava cores, mas insistiu em tentar desarmar a bomba".
Mastigou 32 vezes antes de engolir. Houve muitos outros sapos antes. No entanto, nenhum como aquele.
Tinha tesão por ela. Havia se apaixonado. Até contarem para ele que mulheres não têm pomo de adão...
Contemplou a face de seu pior inimigo. Chorou... Às vezes, olhar no espelho se torna algo revelador.
Tomou a criança nos braços e a beijou, sorrindo. Odiava. Queria que sua campanha eleitoral acabasse.
Queria ser profissional da saúde. Mas tornou-se hipocondríaco. Agora era profissional das doenças...
Pintou os cabelos de azul-turquesa. Todos estranharam. Diziam que ela ficava bem era de verde-limão.
Na polícia, as perguntas. Se pudesse voltar atrás, não teria se casado com ele e com suas confusões.
Jogou tudo para cima. Vida nova era seu objetivo principal. O secundário era ter um teto onde viver.
Esperou de novo na esquina, mas o dono não apareceu. O cão voltaria no dia seguinte... e no outro...
CLASSIFICADO: "Troco coleção completa da revista 'Bela Noiva' por exemplares da revista 'Alô Bebê'".
"Papai, vamos brincar?". "Vamos!". O filho foi pegar seu Playstation; o pai foi procurar o seu pião.
“Gostosa!”. “Cavala!”. Sempre que precisava se sentir desejada, passava em frente àquela construção.
Gastou dez meses e quinhentos reais chupando sorvete, mas trocou os palitos por aquele ioiô maneiro!
Trocaram as camisas entre si após o jogo. Ele pegou micose. O outro cheira a camisa todas as noites.
Ela é namorada dele há cinco anos. Hoje será especial, porque será quando ele contará isso para ela.
Dançou sozinha aquela música pela quarta vez. Sozinha não. Ele estava ali. Ela só não podia tocá-lo.
A modelo de mãos recebeu a proposta mais ousada da carreira: posá-las nuas. Sem esmalte e nem anéis!
Marcou as iniciais de seu nome com ferro em brasa. Agora sim aquelazinhas saberiam que ele tem dona.
Comprou um caderno de caligrafia divino! Precisava parar de escrever certo, mas por linhas tortas...
Passou seis anos na faculdade de Medicina e aprendeu somente a aviar receitas e a gritar "próximo!".
Sem concorrente, Adão relaxou e não prestou assistência à esposa. Flagrou Eva na cama com a cobra...
O Rei comeu o Peão. O Bispo comeu a Rainha. Já o cavalo... Ah, esse deixaram-no de fora da festança.
Os três se desentenderam e Fernando teve de apartar a briga. "Ah, esses heterônimos encrenqueiros!".
Rasgou seu peito, tirou seu coração e ofereceu. Entretanto, ela não aceitou e nem ofereceu o dela...
Foi linda à festa. Quando retornou, tomou um longo banho. Metade de sua beleza escorreu ralo abaixo.
Em casa, o ferreiro pegou a mulher na cama com o marceneiro. Estava comprovado ali o velho ditado...
A voz dela era apaixonante. Sempre que ele podia, ia ao aeroporto ouvi-la anunciar os próximos voos.
Tinha uma tatuagem em cada perna. Na esquerda, escreveu "play". Na direita, "pause". Vivia mancando.
Evitava-o como podia. Onde ele estava, ela não aparecia. Tudo isso para não se jogar em seus braços.
Aos setenta, voltou a se sentir útil. Cumpria como ninguém o trabalho de office-old daquela empresa.
"Ctrl + z". Nada. A amante nua na cama e a esposa na porta... Sem segunda chance. "Ctrl + alt +del".
Gentil, recomendava livros naquela biblioteca havia quarenta anos. E ele nem ao menos trabalhava lá.
Encontrou em um sebo seu último livro lançado. Na página de rosto, uma dedicatória sua para sua mãe.
Assistia a um seriado sobre serial killers na tevê todas as quintas. Na sexta, aí a estrela era ele.
CLASSIFICADO: "Passo o ponto. Dez anos no mesmo local. Freguesia boa. Tratar: Sagrado Templo da Fé".
Ouviu aquela música pela nona vez. Não tinha coragem de pedir para o vizinho grosso baixar o volume.
Era suplente do protagonista de "O Fantasma da Ópera". Em vinte anos, o ator principal nunca faltou.
Tentou pôr na boca aquela garfada pela quarta vez, mas foi interrompida de novo pelas cantadas dele.
Foi descendo o dedo pela lista até pousá-lo sob seu nome. Sorriso. O resultado valeu todo o esforço.
Enxugou o suor da testa e olhou. Sentiu orgulho. Fizera tudo sozinho. Sorriu, deu a descarga e saiu.
Contemplou a fachada do Coliseu. Suspirou e entrou. Lions versus Gladiators. Seu irmão jogaria hoje.
Luz de velas. Somente as chamas em meio ao silêncio. Eles ansiavam que a eletricidade voltasse logo.
Mímica, gargalhadas, show de sombras. O filho caçula torcia para que a eletricidade jamais voltasse.
Escreveu um livro sobre o amor de sua vida. Mas conheceu Laura. Passou a escrever uma nova história.
Linda como uma sereia. Quando finalmente viu a mansão onde ele vivia, apaixonou-se pelo seu canto...
Havia dez anos que não tirava férias. Nesse ano, finalmente tirou... e pegou uma doença. Quarentena.
Foram sete anos de um imenso azar. Quem mandou quebrar o espelho justamente no dia de seu casamento?
Desceu do trem. Olhou o povo agitado da cidade. Roupas velhas, chapéu e, na mala, sonho e esperança.
Ao perceber a barriga dela, levantou-se e, sorrindo, ofereceu seu lugar. E ela nem estava grávida...
Assistindo ao National Geographic, mudou seu testamento: deixou tudo para as Emas Mancas de Bengala.
Foi tirando peça por peça. Quando a garota ficou pelada, ele concluiu que a calça jeans era gostosa.
Pensou em Bia e tuitou “Amo você!”. “Também te amo!”, respondeu Ana... e Sara... e Vera... e Rose...
Ajoelhou-se aos pés dela para fazer o pedido. Sorrindo, apontou para o scarpin: "Empresta pra mim?".
No metrô, ela enroscou o espiral do caderno no alargador de orelha dele. Aí enroscaram-se na vida...
Na calçada, fez o sinal da cruz e pediu forças. Depois baixou o capuz, puxou a arma e foi trabalhar.
Sempre dizia que era uma dama da sociedade. Entretanto recusava-se a contar como havia chegado lá...
À beira do lago, em seu reflexo, uma lágrima pingou... e outra... e outras. Temia que transbordasse.
Era a sua primeira vez. Tirou as roupas. Orava para que não tivesse uma ereção diante do urologista.
Perdeu tudo no alagamento. A revolta veio com a pergunta do repórter: "Como você está se sentindo?".
O sistema operacional "Terra" travou. Enfureceu-se: apertou ctrl + alt + del. Na tela: "APOCALIPSE".
Sempre fora um paulistano orgulhoso. Fala a todos que sua cidade lembra Veneza. Mas só quando chove.
"Leve-nos ao seu líder, terráqueo!". "Papai, acorda logo! Tem dois homi verde cabeçudo te chamando".
O vovô detestava que se intrometessem em sua vida. No táxi: “Para onde vai?”. “Não é da sua conta!”.
Sentiu a lâmina rasgar a carne. Escorreu o líquido vermelho viscoso. Decidiu deixar a barba crescer.
Parou de comer gordura numa sexta. Era a sua segunda chance de vida após a primeira parada cardíaca.
CLASSIFICADO: "Procuro jovens virgens para ritual. É necessário serem de libra e não terem família".
Escreveu: "Te amo, Tom. Se não aparecer para me impedir, vou me casar com Raul". Carteiros em greve.
Este nanoconto de Edson Rossatto foi adaptado para o cinema.
Assista abaixo:
PRODUÇÃO: Cauê Fernandes e Raphael Pereira Santos
ATRIZ: Luna Fonseca
VOZ: Luisa Menezes.
AGRADECIMENTOS A: Bianca Caballero, Isis Delboni, Heloísa Soares, Luisa Cardoso, Aimèe Fernandes.















